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Fonte: http://correio.rac.com.br Por Kátia Camargo

A esperança de crianças e adolescentes que vivem em abrigos diminui à medida que o tempo avança. No Brasil existem hoje 6 mil crianças disponíveis para a adoção e 33 mil pessoas habilitadas para adotar. Em Campinas atualmente 116 crianças estão à espera de uma família e 479 pessoas aguardam na fila do tão sonhado filho. Na próxima quarta-feira, comemora-se o Dia Nacional da Adoção, mas há mesmo o que celebrar?

Segundo a assistente social da Vara da Infância e Juventude de Campinas, Márcia Silva, o perfil das crianças que estão disponíveis para adoção não bate com a escolha da maioria dos pretendentes. “Quase 80% das pessoas que se cadastram querem uma criança que tenha até 5 anos, não aceitam adotar grupo de irmãos ou crianças e adolescentes que apresentem questões de saúde mais graves. Na lista, os candidatos ainda preferem crianças brancas ou pardas”, conta.

O tempo de espera na fila, em média, é de sete anos considerando que os pretendentes aceitem que 70% das crianças que estão nos abrigos tiveram pais com histórico de álcool ou drogas. Outra coisa que faz a conta não fechar é que praticamente 80% das crianças e adolescentes que estão nos abrigos são maiores que o perfil desejado.

“Quanto mais restrições no perfil, mais o prazo pode se estender para a chegada do tão sonhado filho”, diz a psicóloga da Vara da Infância Bruna Pacini.

Laços de amor

adocao maior idade

Mas para quem entra na fila e tem um perfil menos restritivo a espera pode ser menor. Foi o que aconteceu com a fisioterapeuta Raquel Cristina Cassatti, de 31 anos, e o coordenador de customer service Douglas Gonzaga, de 31, que sempre sonharam em ter uma família bem numerosa, e começou a adotar seus quatro filhos em 2014. Após descobrirem que não poderiam ter filhos biológicos o casal optou por entrar na fila da adoção e abriu o perfil para três irmãos de até 10 anos.

O que eles não imaginaram é que no lugar de três filhos viriam quatro, e isso poucos meses após estarem habilitados. Douglas conta que recebeu o telefonema da assistente social e nem teve dúvidas, ligou para Raquel contando que ela seria mãe de quatro. Na época as crianças tinham entre 4 e 9 anos. Raquel diz que ao chegar no abrigo, no interior de São Paulo, viu um menininho correndo e teve certeza que se tratava de um de seus filhos. Foi neste dia que Marcela, 9, Amanda, 7, Cauê, 5, e Fabiana, 4, entraram para a vida do casal para nunca mais saírem.

Durante a reportagem a pequena Fabiana, que hoje tem 6 anos, se emocionou várias vezes ao ouvir a mãe contar a história da família e Cauê, que atualmente tem 7 anos, perguntou: “Você não acha que eu sou a cara do meu pai?”

Douglas lembra que na época as crianças tinham uma grande defasagem escolar, mas que muitos dos obstáculos já foram vencidos após dois anos da constituição da nova família.

“Eles ainda frequentam a fonoaudióloga, uma psicopedagoga e a psicóloga, mas é lindo ver a evolução deles. Claro que passamos por um período de adaptação que é cheio de testes, mas agora eles sabem que nunca vamos abandoná-los”, conta Douglas. Pelo jeito a família ainda não é tão numerosa como eles desejam. “Ainda está em nossos planos outras adoções, quem sabe um quinto ou sexto filho”, diz Douglas.

Outro exemplo de adoção de irmãos é do ex-casal homoafetivo Denis Ferreira Hilari, de 37 anos, e Anderson José da Silva, de 36, ambos bombeiros. Eles também adotaram três irmãos em 2014. O tempo de espera na fila foi de aproximadamente um ano, pois eles também fugiram do perfil tradicional optando por até três irmãos com idades maiores.

Apesar de não estarem mais juntos, os dois pais continuam tendo as mesmas responsabilidade e obrigações com os filhos. “As crianças moram em casa, mas passam o fim de semana com o Anderson. Adaptamos a nossa rotina visando o bem-estar deles e tem dado tudo certo”, conta Denis.

Segundo ele, hoje os filhos entendem que têm dois pais e não vêem problemas com isso. Hoje Wellington já tem 10 anos, Igor, 9 e Lorenzo, 5. “Temos nossa rotina como qualquer outra família. Sempre sonhamos em ser pais e nossa orientação sexual nunca foi impedimento para realizar nosso sonho. Hoje eu digo que não saberia mais viver sem eles”, diz Denis.

Respeito pela história

Tanto Raquel e Douglas quanto Denis e Anderson consideram que é fundamental, para uma adoção dar certo, não tentar apagar a história anterior da criança. “É preciso respeitar muito a história deles, eles têm mais seis irmãos, mais velhos e mais novos, não podemos apagar o passado, mas construímos juntos o presente e o futuro”, diz Raquel. Denis complementa. “Sei que um dia eles vão querer conhecer a mãe biológica e nós vamos ajudar”, diz.

PONTO DE VISTA

Kátia Camargo, jornalista

‘Ele sempre fez parte da nossa vida’

“Meu filho e do meu marido nasceu para a gente quando já tinha 5 anos e 3 meses. Foi meu marido que recebeu o telefonema da assistente social, dizendo que no abrigo tinha um garotinho esperto e que era o xodozinho de todos. De tão emocionado ele não conseguiu perguntar mais nada. Fomos conhecê-lo na escola da cidade que ele estudava. Ao chegar fomos levados para uma sala para tirar nossas dúvidas e saber um pouco de sua história.

No meio da conversa um chorinho interrompeu nossa conversa e a assistente social nos disse: ‘É ele, conheço esse chorinho!’ Foi neste momento que ele nasceu para a gente, um parto diferente, mas não menos emocionante. Ficamos 5 anos na fila da adoção — nosso perfil era de até 5 anos, mas depois que mudamos para 6 fomos chamados.

Faz um ano e meio que nos tornamos pais, mas parece que ele sempre fez parte da nossa vida. O período de adaptação é intenso, mas com o tempo tudo se acalma. Não vimos nosso filho nascer, mas vimos a emoção dele em conhecer a praia. Foi conosco que ele aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas.

Estamos só começando nossas jornada como pais, mas posso dizer que é um crescimento lindo, e que vale a pena cada momento. Eu acredito que a adoção de crianças maiores é reconhecer seu filho um pouco mais tarde, pois não me lembro mais de como era a vida sem ele.”

rodape 2019